
O Último Jogo
(Urano Salvaya)
Apita o árbitro e começa a partida. Thiago foi o mais fominha que conheci. Era engraçado, no quintal de tia Neide, Ele apurrinhando Eu, Marcelo e Titiu para bater bola, usávamos um banco de cimento como um dos gols e o outro era feito com tijolos. O dia em que não queríamos jogar não fazia diferença, foi o único que vi jogar sozinho, fazendo tabelinhas com o muro, atacava e defendia, driblada seus marcadores invisíveis e depois comemorava os gols. Ali surgiu um de seus apelidos: Dura, de Duracell, a pilha que não acaba nunca.
Mais engraçado ainda era sentar no muro nos fins de semana e escutá-lo contar as histórias passadas durante a semana no Vasco. Seus olhos brilhavam ao contar que estivera perto dos grandes ídolos do futebol profissional. – Caraca! Vi Edmundo hoje! Joga muito!

Como não lembrar da final da Conmebol? Estávamos lá, torcendo da arquibancada pelo nosso time da Estrela Solitária em um jogo duríssimo contra o Penharol do Uruguai. Jogo empatado, disputa de pênaltis e no final soltamos o grito de Campeão, nos abraçamos, choramos e ficamos um longo tempo ainda dentro do estádio cantando o hino do nosso time. Eu, Etinho, Fabiano, Titiu, Leonardo, Dr Mário Jorge, Jorge Busquet, Carlos Índio e ele lá pequenininho, pulando e comemorando.
E como todo bom boleiro que se preze, ele também amava o samba, começou no Pró- Álcool, onde Eu, Dudu, Vinicinhos e Ele éramos chamados de heróis. Fazer o que? Fechávamos com Batata e pronto!

Com o tempo foi se aprofundando e conhecendo os bambas do samba de raiz, do samba de roda, do samba de mesa. Cansei de acordar ao som de Arlindo e Zeca no quintal, o som que ecoava da casa do fundo, do Fundo do nosso Quintal, aquele som que exaltava o samba “Exaltasamba”, naquelas manhãs ouvíamos a “Revelação” de uma alma apaixonada por samba.

Todo dia era dia de festa e o quintal era só alegria, descia a escada e gritava Tia Neide, me perguntava qual era a boa do fim de semana e onde iríamos ver o jogo do Botafogo.
Quantas saudades, mas o jogo é jogado e sua equipe era forte. Quantos amigos, melhores amigos. Quantos sorrisos, apenas sorrisos! Coitado de Zóio, um dos mais sacaneados. Horas e horas passadas no muro jogando conversa fora.
Porém em um domingo de sol por obra de Deus deu seu último passe, seu último drible, seu último espetáculo com a bola nos pés. O surdo silenciou, também parou a mão que tocava o pandeiro e as batidas do coração que marcavam o tan tan. Nosso time sentiu, e, contra os reservas do Fluminense não saímos de um zero a zero. Aliás naquele domingo quase todos sentiram e muitos jogos terminaram empatados, não havia vencedores. Os Deuses do Futebol, também revoltados e entristecidos fizeram com que a tarde de domingo fosse de Fúria. E a Fúria se sagrou a campeã da Europa, e o artilheiro carregava nas costas o número que Garrinha eternizou, que Túlio Maravilha te deu enormes alegrias e o que você mais gostava de usar.

O jogo continua, agora em outros campos. Os campo celestial deve estar lotado de admiradores do bom futebol. Já te vejo realizando seu sonho e jogando ao lado do nosso maior ídolo: Garrincha! Também te vejo repetindo as tabelinhas de outros tempos com o nosso amigo Gerinha, imponente, trajando a 10 no time dos sonhos. Vai ser difícil, você e o Garrinha querendo usar a 7, use a 29 ela marca o dia da sua chegada ao novo time (2-9=7). Faça bastante amigos, como fez aqui, entorte a todos com seus dribles e também marque muitos gols. Mande um abraço pro Gerinha, diga que também sentimos a falta dele, se encontrar Jamelão e o Mestre Cartola em uma roda de samba por ai, diga a eles que sou Mangueirense.

Sente tome uma gelada e bata um Papo de Samba.

Torne-se ídolo, o maior de todos, pois quando a minha hora chegar, quero te encontrar por aí e te pedir um autógrafo. Sua torcida aqui é digna de um Maraca lotado.

Saudades sim, tristeza não, Você foi só alegria.
Fotos: J.C. Mesquita;Juninho e Etinho Miranda (Jornal O Estado do Rio)